Entrevista:  

Ricardo Passos, de Portugal, entrevista Reny Golcman
Esta entrevista é parte de em uma publicação escrita por Ricardo Passos
JOIASdoBRASILcom - 24 de julho de 2003

 

 



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Ricardo Passos: Porque escolheu a joalheria e não outra arte ?
Reny: A minha primeira escolha, aos quinze anos, foi à pintura (aos dezesseis entrei na Faculdade), e como profissão para subsistir ou sobreviver, posteriormente pensei em Professorado de Desenho, depois de terminado o curso de pintura. Mas, por problemas familiares (mudança de estado do Rio de Janeiro para São Paulo, e nascimento da minha filha) fiquei por algum tempo longe das telas. Quando numa temporada no Rio de Janeiro (período de férias), entrei em contato com Leito Cavalcante que lecionava Escultura em metal na ENBA, me apaixonei pela matéria e vi possibilidade de trabalhar com esse material na área de jóias em S.Paulo, na minha própria casa podendo conciliar a profissão com os cuidados da casa e educação de filhos (que já eram três). Satisfiz a minha necessidade de criar e executar ao mesmo tempo.>Em 1968, estagiei com Caio Mourão (pioneiro nas jóias de autor).


Ricardo Passos O fato de ser brasileira influenciou a escolha desta profissão? (visto ser um país tão rico em materiais).
Reny: Na ocasião da escolha pela profissão, eu não tinha o discernimento para avaliar o Brasil e o resto do mundo em relação a materiais

Ricardo Passos: Quais são suas fontes de inspiração?
Reny: O fundo do mar com seus movimentos ondulantes das algas marinhas e todas as formas: peixes, animais, corais, estrelas, ouriços, os tentáculos os polvos e lulas, me inspiram sempre, toda a natureza.


Ricardo Passos: Pode me definir o conceito de jóias?
Reny: A jóia é uma necessidade do ser humano de se ornar; os homens primitivos furaram uma concha e penduraram no peito. As sementes que foram e são ainda usadas, os bodoques nas orelhas e lábios, todas as pinturas corporais dos índios e povos primitivos, representam a necessidade do belo em seu corpo, ou ao alcance das mãos.


Ricardo Passos: Ode acaba o bijou e começa a jóia?
Reny: O que diferencia estes dois conceitos? O bijou que em francês é jóia. Para nós brasileiros, portugueses e etc., significa que são peças de ornamento sem autoria, sem valor intrínseco e descartáveis, em larga escala. A jóia varia dependendo do ponto de vista comercial ou artístico. Para o comercio a jóia deve demonstrar o “status“ de quem a usa, podendo partir de um desenho de autor ou“designer“, acompanhando a moda. Enquanto que a “jóia de autor “, é uma peça única ou de tiragem limitada ,produto de um desenho e realizada com técnica de joalheria artesanal na bancada. A jóia de autor é uma criação pura, não importando ao autor entrar em oposição a tudo que existe, é uma “anti–jóia” no sentido tradicional, é o passo a frente do convencional, é uma escultura portável.

Ricardo Passos: O que pensa da utilização de materiais “menos nobres” na execução de uma jóia?
Reny: Para mim quanto menos nobres os materiais, maior é o meu desafio na criação.

Ricardo Passos: Uma jóia concebida por si, tem que ter sempre por trás um conceito subjacente?
Reny: O conceito subjacente é usado por mim muito raramente, nem 1% das obras.

Ricardo Passos: Quando cria suas jóias, fá-lo tendo em vista alguém ou algum público em particular que irá usa-las ?
Reny: Eu crio as minhas jóias pensando na forma e na praticidade para usa-la. Por exemplo, um colar pode e deve ser ousado, mas também cômodo, por isso na medida que eu vou executando vou experimentando para saber se é cômodo usa-la. Meu público é particular, mas nas encomendas penso na pessoa que vai porta-la.


Ricardo Passos:Quais os materiais mais usados em suas criações? Utiliza atualmente mesmos materiais que utilizava no início do seu percurso criativo / artístico?
Reny: Os materiais mais usados são a prata e o ouro.Uso sempre materiais diversos para completar a jóia; desde pedras semipreciosas, preciosas, cortiça, conchas, seixos e etc... Não sinto que tenha havido alteração de materiais, desde o início da minha carreira.



Ricardo Passos: Quais as técnicas mais utilizadas?
Reny: A concepção de jóias, para si, é apenas feita no papel ou o processo de criação só termina na oficina? Eu uso a bancada desde o início, sem terceirizar. Sento crio e executo o que eu vou sentindo, à medida que vou executando modifico. O processo de criação só termina com a jóia acabada quando vou determinando a textura final da peça.



Ricardo Passos: A joalheria está condicionada pela moda / vestuário?
Reny: A joalheria permanece atual e a moda é passageira.Sinto isso nas minhas peças que são feitas desde 1964 e que continuam interessando e agradando (a você, por exemplo), no século XXI.


Ricardo Passos: Se suas criações fossem associadas a um tipo de música, qual seria ela ?
Reny: A música popular brasileira é a minha constante companheira.



Ricardo Passos: Como divulga o seu trabalho ? Onde comercializa suas jóias ?
Reny: As minhas jóias são atualmente menos comercializadas. Pertenço ao Grupo JOIASdoBRASIL.com e participo de eventuais exposições coletivas. Em 2001 fiz uma pequena retrospectiva individual da minha obra.

Ricardo Passos: Acha que o seu sucesso se deve ao fato de suas criações serem versáteis (mutabilidade das mesmas ) ou questões estéticas?
Reny: A jóia é a minha linguagem.Creio que o meu sucesso se deva a questões estéticas ligadas a curiosidade que a mutabilidade desperta e também às minhas “krono–jóias” (uma maneira inédita de usar relógios ).

Ricardo Passos: Qual pensa ser o futuro da joalheria de autor?
Reny: A jóia de autor é o futuro da jóia, é a busca, é a honestidade e espontaneidade, é a procura da renovação, é o estimulo a força e o desafio.

Ricardo Passos: Que conselho dá aos jovens criadores para que consigam progredir nesta arte?
Reny: Aos jovens criadores recomendo que continuem a pesquisar, sendo honestos nas linhas estruturais das suas peças, procurem dentro de si a concepção de cada jóia, que é visceral, é como um parto. Ao criar é fundamental não pensar no comercial e sim na beleza e interação da jóia com o ser humano, na energia que o processo de criação propícia.

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